domingo, 24 de agosto de 2008
Querer amar
e me embriagar da tua saliva
eu quero morder teu sorriso
e apagar tuas divisas
eu quero saborear teu choro
e soletrar os meus segredos
eu quero me enrolar em teu corpo
e me esconder em teus desejos
eu quero sussurar meu beijo
e inventar tuas mentiras
eu quero imitar teu jeito
e engolir tua alegria
ver o mundo calado, como eu queria
só te ouvir cantar, e ainda quero
te mostrar a minha dor, a minha agonia
uma menina linda, poder amar, eu espero
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Onomatopéias cardíacas
Desde pequeno, sempre me mandaram ouvir “a voz do coração”. Nunca hesitei em seguir esse conselho. Na quietude da noite, lhe escuto. E ele só bate na porta do meu peito e pergunta:
- Tem alguém aí fora?
terça-feira, 29 de julho de 2008
O monstro e o carrasco
No meu velho vício de escrever textos e poesias, nunca, nem sequer no instante de uma rápida reflexão, esperei redigir uma história infantil. O curioso dessas narrativas não consiste exatamente nas suas mensagens, mas na forma como essas mensagens são cuidadosamente elaboradas por seus escritores (em uma tentativa desesperada de, um dia, se tornarem novamente criança).
FIM
Aos carrascos que me amaram e aos juizes que fizeram de mim um monstro, dedico a minha primeira história infantil
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Meu bem,
Aqui acaba o meu dia de ontem. O sol que me põe para dormir despertará uma data que demorarei a perceber. As estrelas que contava para te encontrar sumiram na claridade, tornaram-se invisíveis de tão evidentes e iluminadas. A lua agora viaja para um lugar qualquer, apressada para tornar insano tantos outros insones que só pensam em não ser. Quando você acordar estarei bocejando um sono leve, o sono inseguro dos amantes inquietos. Espero não chegar novamente atrasado para te desejar bom dia. Que ele o seja, ainda que (e talvez porque) sem mim.
Para aquela que, dentro de mim, adormece (mas acorda sozinha)
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Cara solidão,
Estive pensando na saudade que sinto de ti. Vivemos bons momentos juntos. Será que agora sentimos medo um do outro? Até pouco tempo não precisava te convidar para uma visita. Éramos como dois grandes amigos. Lembro da última vez que viesses dormir aqui em casa, ao meu lado, me vendo levantar da cama para procurar algo que nunca encontro na geladeira vazia. Eu ia ao banheiro e mirava aquele espelhinho que tu me desses de presente. Sempre me assustei ao ver nele a tua imagem refletida, no lugar da minha. Largava de súbito o objeto e olhava novamente para te observar mudar tantas vezes de corpo, até se transformar no meu que, enfim, podia chorar. Ao voltar para cama, me cantavas algumas canções de ninar e eu adormecia tranqüilo em teus braços. Logo depois, o dia amanhecia. E eu me sentia tão criança quando tentava ficar acordado até a hora de você ir embora, te vigiando para que não fugisses sem despedida, assim como sempre fazia o mal-educado papai noel nas tristes noites natalinas.
Quero, ainda, justificar a minha mais recente ausência. Estive com uma amiga no último sábado. Talvez você também a conheça. Assistimos um filme, conversamos sobre coisas banais. Nos pediram para fazer silêncio, algumas vezes. Eu também faria o mesmo. Sorrimos, gargalhamos. Quando não tínhamos mais motivos, fazíamos cócegas. Ela se foi e eu fiquei, porém, sem ti. Para onde ela terá ido? Não sei. Se você a encontrar, pergunte como foi seu dia, abrace-a, diga que a amo. Não tenha ciúmes porque com ela te traí. Ela saberá, também, te fazer companhia.
Para uma menina linda.
domingo, 29 de junho de 2008
Faculdade de Direito do Recife,

Vista de cá, mal sabes como és feia. Pena que és, também, tão narcisista. Gostaria, um dia, de te levar para passear. Poderia te apresentar aos meus amigos. Conhecer novos rostos te faria, com certeza, muito mais bela. Não, não tenhas medo deles! São velhos camaradas. Pode parecer estranho, mas eles não se vestem assim, engravatados (como aqueles que se dizem teus professores). Andam descalços e sobrevivem de esmola, porque foram roubados. Mendigam sem saber que, aquilo que pedem, na verdade, lhes pertence. A maioria deles possui rostos pintados de cores que jamais olhaste. Sonho com o dia que não lhes levarão para te visitar, como se freqüentassem uma casa que não lhes pertence. Gostaria que eles pudessem morar aí contigo; mas isso, porém, sempre lhes negaram.
Lembro da primeira vez que me vi aí, dentro de ti. Tua arquitetura imponente me fez sentir-me tão pequenino (assim como eu, hoje, te acho). Então voltei mais vezes e vi que, na verdade, para isso fosses feita. Para eu me sentir pequeno diante de um direito que não é meu (nem dos companheiros que nunca, em teus domínios, sequer pisaram).
Que direito passa por ti? Porque não achas que é direito o que se faz aqui fora? E Porque te dizes pública, afinal?
Na verdade, te prostituíste. Deixasse que usassem teu corpo para continuar oprimindo os que nunca te adentraram. Agora és coisa e, na condição de coisa, não podes permitir que todos tenham a ti acesso: essa é a lei do mercado. Estás jogada nas mãos de poucos. Ofereces a eles teu status, e assim te valorizam. És, para eles, moeda de troca. Em breve, eles não mais precisarão de ti, e te entregarão aos oprimidos, como esmola.
Por isso, quero dizer, ainda que agora não me ouças: as grades que te separam do mundo não te protegem. Tuas grades tornam-te fadada à autofagia. Mas pessoas aqui fora não permitirão que te destruas. Elas te estenderão as mãos, mas não para ocuparem esse espaço de hegemonia: querem elas destruir teus portões, apagar essa linha invisível que te divide do mundo. Estarão aí dentro mesmo que daqui de fora, porque inexistirão esses conceitos...
E só então te farás bela!
sexta-feira, 27 de junho de 2008
Versos inacabados
Nós, homens e mulheres, somos, também, versos. Versos construídos por versos próprios e por versos outros. Não somos pertences nem alheios de nós mesmos, porque versos. Versos que anunciam versos. As vezes, assim como os versos, nos dizemos sozinhos. Mas não nos saberíamos sozinhos, sem o outro. Preciso de alguém para me sentir só. Se esse alguém inexistisse, não me sentiria.
Estamos juntos, portanto. Somos versos que rimam ainda que sem rimar, num eterno encontro e desencontro de nós mesmos. Sei de mim o que sei sobre o mundo, e tento abraça-lo forte, abraçando a todos para poder me abraçar.
Já somos versos! O que nos falta é ser poesia...